Extração de petróleo deve pôr o Brasil em terceiro lugar entre os maiores responsáveis pelo efeito estufa, atrás da China e Estados Unidos.
A exploração de petróleo do pré-sal deverá colocar o Brasil na terceira posição entre os maiores emissores de gases do efeito estufa até 2020, atrás apenas da China e dos Estados Unidos. Atualmente, o país é o sexto colocado. A previsão foi feita pelo Greenpeace com base em vários estudos elaborados pelo governo federal, pela Petrobras e por pesquisadores de mudanças climáticas. A estimativa é de que as emissões brasileiras tripliquem a partir da extração de uma nova grande fonte de combustíveis fósseis e da queima desse óleo em veículos e indústrias.
A exploração e a queima do petróleo atualmente seriam responsáveis por liberar 321 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO2 eq) ao ano. Com a perspectiva de aumentar a produção de combustível fóssil dos atuais 2 milhões de barris diários para 4,5 milhões em 2020, as emissões de gases do efeito estufa em consequência do petróleo passariam a ser de 956 milhões de toneladas de CO2 eq anuais, calcula o Greenpeace. Atualmente, a queima de combustíveis fósseis equivale a 12% das emissões de gases no Brasil, mas com o crescimento da produção de petróleo e a redução de outros tipos de liberação, como o desmatamento, pode chegar a quase metade das emissões em 2020.
O carbono é nosso
Todos esses números estão no estudo O carbono do petróleo é nosso, elaborado pelo Greenpeace. Ricardo Baitelo, coordenador da campanha de energia da ONG, destaca que o levantamento considerou a emissão de gases em todo o processo de extração e uso do petróleo, que inclui a extração, o transporte, o refino e a queima no consumo final. Por enquanto, a única opção apresentada pelas petroleiras para reduzir o impacto ambiental é um sistema que devolve para o subsolo o gás natural que escapa na perfuração dos poços. Chamada de CCS, essa tecnologia é cara e ainda pouco testada.
O físico Paulo Artaxo, professor da Universidade de São Paulo e integrante do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, da Organização das Nações Unidas, destaca que não existem estudos conclusivos sobre a quantidade de petróleo no pré-sal nem sobre a emissão de gases decorrente da exploração do combustível fóssil. Ele destaca que o aumento da emissão vai depender da quantidade extraída, da eficiência do processo e também do refino e uso final do combustível fóssil a ser extraído. “A exploração em alto mar tem uma emissão muito pequena comparada à queima no consumo”, frisa.
André Ferretti, coordenador do Observatório do Clima da Rede Brasileira de ONGs Ambientais e coordenador de estratégias de conservação da Fundação Boticário, ressalta que falta estabelecer limites para que os países reduzam a emissão de gases. Essa atitude está sendo, ano após ano, protelada e no último debate mundial, em 2011, ficou combinado que os parâmetros serão fixados apenas em 2020. “Da Rio92 pra cá aumentou a emissão em no mínimo 50%, ou seja, foi no sentido contrário da discussão daquela época, que falava em reduzir”, lembra.
Artaxo acredita que o debate sobre o aumento do uso de combustíveis fósseis no Brasil precisa ser mais intenso, discutindo amplamente as alternativas e implicações que o uso de combustíveis fósseis tem sobre o aumento do efeito estufa e as mudanças climáticas. Os ministérios de Minas e Energia e de Meio Ambiente, além da Empresa de Pesquisa Energética, foram procurados pela Gazeta do Povo, mas não se manifestaram sobre a possibilidade de o Brasil subir três posições no ranking de emissores de gases do efeito estufa em função da exploração do petróleo do pré-sal.
Opção é não explorar, alertam especialistas
Para o professor Celio Bermann, do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP, mais urgente do que discutir quanto a exploração do petróleo do pré-sal vai representar em aumento de poluição é debater se o combustível fóssil deve realmente ser tirado das profundezas do mar. “Seria mais adequado se guardássemos essas reservas. Os Estados Unidos consomem o petróleo dos outros países e mantém suas reservas próprias”, reforça. Bermann avalia que uma alternativa é explorar o petróleo de forma parcimoniosa e sem exportar o produto bruto.
“Muito mais sério do que a emissão é a dependência de um modelo fadado a acabar”, argumenta André Ferretti. Para ele, o Brasil devia estar discutindo com os outros países como o mundo pode colaborar para evitar que a reserva do pré-sal seja explorada. O pesquisador de mudanças climáticas destaca que, há alguns anos, o Brasil era conhecido como o país do biocombustível e agora passou a ser visto como uma fonte de petróleo por causa do pré-sal.
Matriz diversificada
O físico Paulo Artaxo analisa que a ampliação do uso de energia solar, eólica e de petróleo do pré-sal daria ao país uma matriz energética diversificada e limpa. “Se utilizarmos inteligentemente um bom balanço entres as principais fontes energéticas no país, certamente o Brasil terá vantagens estratégicas enormes no futuro, com uma matriz energética mais limpa e diversificada”, pondera.
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Renovação
Falta investir em tecnologias
Pesquisadores consultados pela Gazeta do Povo enfatizam que existem formas de reduzir a emissão de gases do efeito estufa mesmo sem diminuir a produção de petróleo. Para eles, não há o investimento necessário no desenvolvimento de tecnologias para queima de combustíveis. “Há muito espaço para aumento da eficiência energética. Uma fração grande da energia utilizada é desperdiçada em processos antigos, em motores não otimizados na indústria. O mesmo vale para automóveis”, analisa o físico Paulo Artaxo. Para ele, deve haver incentivo e pressão para a aplicação de novas tecnologias, que usem menos combustível e que poluam menos. O pesquisador André Ferretti defende que o poder público seja responsável por cobrar mais eficiência de petroleiras e indústrias. “Precisamos ter automóveis mais econômicos. O governo dá incentivo à indústria automobilística sem exigir melhoria de performance.”
Fonte: Jornal Gazeta do Povo
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