terça-feira, 19 de abril de 2011

Pichadores se organizam para sujar cidades.

Trabalho de repressão esbarra na dificuldade de flagrar pichações. No sábado, 32 pessoas foram presas em Curitiba, durante encontro nacional.

           Albari Rosa/Gazeta do Povo / Os rabiscos são deixados até no alto de prédios, como este no Centro Cívico, em Curitiba
              Os rabiscos são deixados até no alto de prédios, como este no Centro Cívico, em Curitiba

A pichação tem se caracterizado como um fenômeno urbano bastante organizado e muito presente em grandes cidades. No ano passado, 670 casos fo­­ram denunciados à Guarda Municipal de Curitiba (GM) – mé­­dia de quase duas notificações por dia na capital. Número que tende a ser ainda maior, já que muitas situações são ignoradas ou passam despercebidas pela população. Embora haja a busca por punição, essas ações são difíceis de serem flagradas. “É um trabalho de gato e rato, pois é preciso que a pessoa esteja pichando no momento do flagrante para que exista o crime”, afirma o inspetor da GM Cláudio de Oliveira.

Entretanto, foi a partir de uma denúncia anônima e das imagens registradas por câmeras de segurança espalhadas pelo Centro de Curitiba que a GM conseguiu deter em flagrante 32 pessoas que pichavam a cidade no último sábado. Entre eles estavam pichadores de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro que disseram ter vindo a Curitiba para participar de um encontro nacional de pichação, combinado pela internet. “Eles estavam com uma infinidade de sprays, tintas em garrafas pet, pincéis e rolos”, conta Oliveira.

Personagem
“Corria risco de tudo. Não tem vantagem”
Na definição do ex-pichador Fábio (nome fictício), “Curitiba era como um caderno de caligrafia em branco que precisava ser completado”. Com essa ideia, ele começou a pichar aos 12 anos de idade e só deixou os sprays, os pincéis e as varas usadas para alcançar lugares mais altos quando foi apreendido em flagrante, ano passado.

“Nesse meio, todos querem pichar a cidade inteira e a questão não é conseguir pichar mais alto, mas sim pichar mais lugares e ser visto”, conta Fábio sobre o status entre os grupos de pichação. Segundo ele, os pichadores se mobilizam em comunidades on-line para se conhecer e trocar “folhas”, como é chamado o rascunho que contém a identidade das pichações.

“Eu gostava de pichar todos os lugares por onde eu sempre passava para ver minha marca quando retornasse. As meninas falavam que reconheciam o meu piche, mas eu não preciso mais disso. Quando eu saía para pichar, corria risco de tudo: de morrer, de ser assaltado, de ser preso. Não tem vantagem”, pondera. Agora, Fábio se dedica à restauração de espaços que antes degradou em um projeto patrocinado pela iniciativa privada. (DT)

O grupo tinha, inclusive, DVDs com imagens feitas por celulares que continham informações sobre as edificações a serem depredadas e rotas de subida nas paredes. “Eles [pichadores] têm formado grupos organizados”, observa Oliveira.

Dificuldade
Além do flagrante, a ambição dos pichadores também dificulta a repressão. Eles têm pintado seus códigos em locais cada vez mais altos. “Eles saíram do nível do chão e agora fazem pichações a partir do primeiro e do segundo andares dos prédios. É difícil contê-los porque não temos o costume de andar olhando para o alto e, como agem à noite, ficam fora do alcance da iluminação pública”, diz o inspetor. O maior número de denúncias chega à GM nas noites de quinta, sexta e sábado.

Em janeiro, depois de gastar R$ 6 mil vindos do governo do estado na pintura de todas as paredes do Colégio Estadual Tenente Sprenger, em Pinhais, na região metropolitana, a diretora Rita de Cássia Schievenin viu o local amanhecer pichado. “Entraram quando o colégio estava fechado e picharam as paredes de cima a baixo. Não deu tempo da nova pintura completar um mês”, lamenta.

Levantamento
Na capital, o Centro é o local preferido dos pichadores, além de bairros como Boa Vista, Hugo Lange e Cabral. Mais de 50% dos pichadores flagrados são estudantes entre 16 e 17 anos e moradores de bairros da periferia ou de municípios da região metropolitana. “O pichador quer ser visto e reconhecido. É uma forma de demarcar o território. As mensagens representam uma forma de comunicação entre eles”, diz Oliveira. A pichação é considerada um crime de menor potencial ofensivo, que pode acarretar em multa e até um ano de detenção.

Serviço:
Casos de pichação podem ser denunciados à Guarda Municipal pelo telefone 153.

Fonte: Jornal Gazeta do Povo

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